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Movimento “Velho Chico Vive”: 1 ano de protestos contra a Usina do Formoso

14/09/2021

/ by UPira

BHSF divulga imagens do local exato onde está prevista a construção da usina. Pesquisadores reforçam alerta sobre os impactos ambientais do projeto

Por Max Rocha

Fotos: Tanto Expresso - Léo Boi

Há 1 ano organizações, moradores e artistas criaram o movimento coletivo, “Velho Chico Vive”, para alertar e denunciar os impactos da construção da Usina Hidrelétrica (UHE) Formoso e defender o Rio São Francisco. O movimento chama atenção para os impactos da obra, as consequências da barragem para a Bacia hidrográfica “Velho Chico” e as providencias que já foram tomadas para a não construção da UHE e o que ainda poderá ser feito.

O produtor musical Pedro Surubim lembra que a região mineira de Pirapora e Buritizeiro foi pega de surpresa, no final de 2019, com o anúncio do projeto da nova usina hidrelétrica no Rio São Francisco: “A decisão, publicada em maio de 2020, no Diário Oficial da União, causou indignação por ter sido tomada sem consulta pública à população local. Além de piorar a falta de água que já existe na região, vai contribuir para as mudanças climáticas e destruir a biodiversidade do rio em uma região importante para a reprodução de peixes”, disse.


Pedro Surubim falou também sobre os efeitos da UHE Formoso na cultura e economia: “A construção da usina impactará diretamente as comunidades tradicionais que vivem na região e pequenos produtores rurais. Os riscos são imensos e de vários âmbitos. Os impactos não se estendem apenas aos municípios mencionados pela empresa no cadastro do empreendimento, mas a toda a bacia, sobretudo no trecho entre as hidrelétricas de Três Marias e Sobradinho (BA) e às cidades de Pirapora e Buritizeiro”.

“Pirapora e Buritizeiro já sofrem com a ausência de peixes como o pacamã e o surubim, pode se preparar para não ver certas espécies nunca mais. Como muitos deles usam os rios e lagoas marginais para se reproduzirem, outro barramento no rio impactaria seu ciclo reprodutivo, causando extinção”, afirmou o produtor musical, que também ressaltou que a barragem será construída em uma região do Cerrado, que tem veredas e matas ainda preservadas.


A obra integra o Programa de Parcerias de Investimento (PPI) do Governo Federal, que potencializa o processo de privatização no Brasil. A empresa responsável pela hidrelétrica é a Quebec Engenharia. A UHE Formoso terá potência instalada de 306 MW e 3 turbinas, projetada para ser implantada a 12 km da cidade de Pirapora e 88 km da UHE Três Marias. A área do reservatório terá tamanho de 312 km2 (o que equivale a 31,2 mil campos de futebol), cobrindo boa parte do município de Buritizeiro.

Trechos de afluentes e subafluentes serão alagados

A barragem será construída a jusante da UHE Três Marias, situada logo a montante do remanso a ser formado e a montante da sede de Pirapora - na faixa superior final do trecho de escoamento livre do Rio São Francisco, afetando uma área de cerca de 100 km de comprimento entre os dois municípios. O trecho é reconhecido como ‘Rio Estadual de Preservação Permanente’, devido a sua extrema importância biológica, principalmente para a conservação de peixes.


O reservatório inundará trechos de diversos afluentes e subafluentes da bacia, como o Ribeirão do Gado, Ribeirão Gameleira, Rio de Janeiro, Ribeirão do Gama, Ribeirão dos Tiros, Rio (Córrego) Formoso e Ribeirão do Jequi nos municípios de Várzea da Palma, Lassance, São Gonçalo do Abaeté e Três Marias. O Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda, é taxativo: “O rio não suporta mais esse tipo de empreendimento. O que o Velho Chico precisa é de revitalização”.

Assim, o comitê contratou o estudo técnico intitulado “Análise preliminar de riscos ambientais relacionado à UHE Formoso”, para avaliar os impactos da construção. A Consultoria Consominas Engenharia concluiu que o empreendimento poderá promover graves desequilíbrios na hidrologia, socioeconomia e ictiofauna, ameaçando as espécies de peixes migradores e espécies ameaçadas de extinção.


A pesquisadora de pós doutorado da área de ecologia e conservação (da Universidade Federal de Lavras/UFLA), Ruanny Casarim, reforça o alerta dos ambientalistas e cientistas: “A transformação do trecho lótico em reservatório destruirá uma área central de desova, utilizada pelos maiores peixes migradores de interesse comercial da bacia, como o dourado, surubim, curimbas, piau-verdadeiro e matrinxã. Além disso, a região contém uma significativa população remanescente de pirá, espécie endêmica e reofílica, ameaçada de extinção”.

Quebec realça importância da UHE Formoso

Os indígenas Tuxá estão há 65 anos na região de próximo à confluência do Rio Paracatu com o Rio São Francisco – área que será inundada pela construção da UHE Formoso. A Cacique Anália Tuxá, da aldeia em Buritizeiro, reafirma que seu povo é contra a construção do empreendimento. O pescador de Pirapora Josemar também é contrário: “É uma vergonha! Existe a falsa ideia de que a UHE trará desenvolvimento para a região, gerando empregos e arrecadação. Isso é mentira e estamos esclarecendo isso para a população”.


O Coordenador da Câmara Consultiva Regional (CCR) Alto São Francisco, pertencente ao CBHSF, Altino Rodrigues Neto, ressalta que a UHE Formoso ameaça apagar a identidade de diversas comunidades tradicionais, além dos sérios impactos ambientais. Ao contrário de todas as críticas, protestos e questionamentos ecológicos, o Gerente de desenvolvimento da Quebec Engenharia, Leôncio Vieira, dá ênfase a importância da UHE Formoso no contexto de geração de energia e usos múltiplos.

“A transição energética no Brasil se faz necessária e o País ainda precisa de mais usinas com grande capacidade de armazenamento para contribuir com a segurança energética nacional. As usinas hidrelétricas já existentes não conseguirão complementar a geração de energia. As usinas solares e eólicas não resolverão, sozinhas, nossa grande necessidade elétrica”, enfatizou Leôncio. O projeto se encontra em fase avançada de estudos estruturantes e a previsão é que a licença ambiental seja concedida no início de 2022.

Fotos: Tanto Expresso - Léo Boi

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