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Coluna Buteco do Max: A cachaça comemora 506 anos de história e cultura brasileira

10/03/2022

/ by UPira

A bebida surgida no século XVI inspirou livros, estabeleceu a ‘cachaçologia’ e ganhou referência em Minas Gerais

por Max Rocha

Foto: Divulgação

A mais brasileira das bebidas comemora 506 anos em 2022. São duas as versões sobre o surgimento da cachaça. “Há registros de que, em 1516, já havia significativa plantação de cana nas sesmarias da Ilha de Itamaracá e do Canal de Santa Cruz, no litoral norte do Recife. Assim, começaram a se instalar os primeiros engenhos de açúcar no Brasil”, explica o Engenheiro e “cachacista” Jairo Martins da Silva. A segunda versão defende que a produção teve início com o primeiro engenho na Ilha de São Vicente-SP, em 1532, com cana trazida das ilhas da Madeira e de São Tomé.

No texto “Cachaça’, de 1977, o Sociólogo Gilberto Freyre - um apreciador que fabricava licor de pitanga e oferecia garrafas aos amigos estrangeiros - também acredita na primeira versão: “O engenho de açúcar madrugou no Brasil Colônia. Embora o primeiro oficialmente dado como tal tenha surgido em São Vicente, parece que antes dele já se plantava cana e já se fabricava açúcar em Pernambuco. E, com o açúcar, é evidente que alguma aguardente de cana, cujo nome mais generalizado na colônia não tardaria a tornar-se cachaça”.


Determinar com precisão a data de nascimento da “branquinha” não é tarefa fácil, mas é possível dar um passeio por seu percurso histórico para compreender como ela se tornou a bebida oficial do país. A clássica marchinha de carnaval “Cachaça”, dos anos 1940, coloca-a no topo das necessidades vitais, acima dos alimentos e até do amor: “Pode me faltar tudo na vida/ Arroz, feijão e pão/ Pode me faltar manteiga/ E tudo mais não faz falta não/ Pode me faltar o amor/ Isto até acho graça/ Só não quero que me falte/ A danada da cachaça”. Hipérboles à parte, sua importância é inegável.



O Historiador e Antropólogo Luís da Câmara Cascudo dedicou um livro à “marvada”: “Prelúdio da Cachaça”, em 1952. Segundo as pesquisas, o termo aparece em uma carta do Poeta Sá de Miranda (1481–1558), descrevendo, na Espanha, uma aguardente feita com resíduos da pisa das uvas (provavelmente a bagaceira) no século XVI. Nos séculos XVII e XVIII, no Brasil, esse nome popular designava um resíduo da produção de açúcar usado para alimentar os bois e as vacas. Apesar de suja e impura, essa primeira espuma era bem doce e atrativa para os animais.


A espuma da segunda caldeira gerava uma garapa usada pelos escravos. Quando guardada, até azedar, virava aguardente. À época, negros e indígenas não conheciam bebidas destiladas, mas apenas fermentadas, feitas com frutas e raízes. A cachaça se estabeleceu como a bebida feita do caldo/mel de cana, fervido e destilado em alambiques de barro ou de cobre. Virou moeda de troca. O tráfico negreiro impôs sua valorização. “Aguardente da terra”, era moeda indispensável na compra do escravo africano, juntamente com o tabaco de rolo.

O primeiro consumidor

Os escravos consumiam a bebida desde a travessia oceânica, para tentar esquecer sua situação. Durante séculos beberam para aliviar a saudade, suportar o exílio injusto, a judiação dos feitores, dos senhores de engenho, a lida nos canaviais, na mineração, nas fazendas de cacau, café e algodão. “O escravo foi quem primeiro bebeu a cachaça, como cataplasma para seus males, não somente do corpo como também do espírito”, afirma o Pesquisador Mário Souto Maior no “Dicionário folclórico da Cachaça”, de 1973.


A predileção popular pelo destilado resultou na queda do vinho do Porto, o que fez Portugal proibir a fabricação do chamado “vinho de mel” na colônia - Carta Real de 13 de setembro de 1649. A proibição não surtiu efeito e impulsionou a produção clandestina. Acabou sendo revogada em 1661, conta Jairo Martins da Silva no livro “Cachaça: o mais brasileiro dos prazeres”, de 2008. A descoberta do ouro em Minas Gerais e seu escoamento para Paraty, no Rio de Janeiro, ampliou a produção. Paraty tinha cerca de 150 alambiques clandestinos na época da proibição.


Apesar da proibição formal, a bebida também era negociada com os indígenas. Os jesuítas impediam a entrada da bebida nas aldeias. Mas ela veio com tudo quando os religiosos voltaram para Portugal. “No Nordeste do Brasil, a cachaça foi uma calamidade aniquiladora dos derradeiros índios tupis, cariris, tarairiús e jês”, lamentou Câmara Cascudo. Originária da Papua Nova Guiné, na Oceânia, a cana se desenvolve melhor em regiões tropicais e semitropicais. A 1ª cachaça nacional industrializada foi a Monjopina, no Engenho Monjope (PE), em 1756.

Surgiu a Cachaçologia

O mercado em torno da bebida criou profissionais especializados. Quem produz é o alambiqueiro, mestre cachaceiro ou cachaçólogo; quem indica harmonizações (combinações de sabores) é o cachacista, cachacier ou sommelier de cachaça; e quem aprecia é o cachaçófilo. Pode ser servida como “abrideira, junto com tira-gostos”; como “companheira” (de pratos como feijoada, sarapatel, churrasco ou feijão tropeiro); ou “saideira” na refeição ou ‘happy hour’. A cachaça é a 2ª bebida mais consumida no Brasil, atrás apenas da cerveja.


Minas Gerais se destaca pela qualidade e diversidade da produção de cachaça artesanal, enquanto São Paulo, Pernambuco e Ceará respondem pelo maior volume da versão industrializada. Alguns rótulos viraram verdadeiras lendas. É o caso da cachaça “Havana”, produzida em Salinas (MG) desde 1943 e envelhecida por até uma década. A bebida, que já tinha edição bastante limitada, ganhou outro rótulo: “Anísio Santiago”, nome do produtor original. A Havana custa o dobro da Anísio Santiago – cada garrafa não sai por menos de R$ 350.




* Texto baseado na pesquisa original da Jornalista Renata do Amaral - Professora, doutora em comunicação e autora do livro “Gastronomia: Prato do dia do jornalismo cultural”


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